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Variedades | Resvista Criativa Gente - Três Lagoas
29/07/2009 - 14:12 | Atualizado em 29/07/2009 às 14:37

Rui e Binha: 50 anos de choro

Os músicos são exemplos de como um cavaquinho e um violão podem unir duas pessoas por uma só paixão: a música

Daniela Galli
Daniela Galli
Respeito e Educação são os ritmos desta amizade
Respeito e Educação são os ritmos desta amizade
Para quem não os conhece, são apenas Rui Barbosa e Rubens Luiz Nogueira da Cunha. Para os músicos de Três Lagoas, eles são exemplos a serem seguidos. Para os três lagoenses, eles são Rui e Binha, considerados os reis do choro.

Rui está hoje com 74 anos e Binha com 76. Ambos completaram em 2008 50 anos de carreira musical. Eles são exemplos de como um cavaquinho e um violão podem unir duas pessoas por uma só paixão: a música.
Rui conta que na década de 50 ouvia atentamente às músicas que tocavam nos auto-falantes da cidade. “Ficava encantado quando Waldir Azevedo interpretava ‘Pedacinho do Céu’”. Ele tinha muita vontade de aprender a tocar cavaquinho e adquiriu o instrumento de uma maneira um tanto peculiar. “Um amigo me deu o instrumento em troca de um saco cheio de bolinhas de gude”. Começava então uma carreira de sucesso.

O músico ouvia as canções do auto-falante, assoviava e transferia as notas para o cavaquinho.
Binha trabalhava com o amigo na rede ferroviária e começou a gostar de música ainda em casa. “Via meu pai tocar e tive vontade de aprender”. O violão, companheiro inseparável, não foi seu primeiro instrumento. “Tocava violino e depois aprendi a tocar o violão para acompanhar Rui”.

Daí em diante não pararam mais. Quando as primeiras emissoras de rádio decidiram investir em apresentações musicais, a dupla era constantemente convidada a se apresentar sozinhos ou então tocando músicas que seriam interpretadas por outros cantores. “Tocávamos pagode, rumba, mambo, fox, boleros e valsas, antes de escolhermos uma só modalidade musical”, relembra Rui.

Mas o chorinho não demorou muito para entrar em suas vidas. Ainda na emissora de rádio para a qual se apresentavam, eles ouviram um LP de Jaccob do Bandolin. Rui conta que naquele momento se apaixonou pelo ritmo. “Levei o disco para casa e consegui rapidamente tocar todas as músicas”.

Os dois comentam que nunca freqüentaram uma escola de música. Mesmo assim ainda hoje conseguem interpretar juntos canções sem uma hora sequer de ensaio. “Um já sabe bem a maneira do outro tocar e se comportar com o instrumento, daí, verificar antes de se apresentar fica desnecessário”, explica Binha.
A dupla reconhece que a música se modificou muito com o passar dos anos. Entretanto eles admitem gostar de muitos cantores contemporâneos como Paulinho da Viola, Toquinho e Chico Buarque de Holanda.

Rui só faz algumas ressalvas em relação ao conteúdo das músicas de hoje em dia. “Admiro o progresso que a eletrônica trouxe para o universo musical, mas penso que as melodias deveriam ser mais naturais sem tanta coisa desnecessária”. O músico diz que quando começou sua carreira as letras eram mais suaves e não eram como atualmente, repletas de erotismo e apelação.
Após tantos anos juntos, eles confessam que até hoje são bons “compadres”. “Nunca brigamos por motivo algum”, conta Binha. Rui reconhece que é o mais genioso da dupla e admira a compreensão do amigo. “Nossa relação sempre foi baseada em muito respeito”.

Apesar de trazerem no rosto as marcas implacáveis da idade, os jovens senhores ainda não pensam em parar de tocar. Rui conta que é difícil recusar um convite. “Já anunciamos que íamos encerrar a carreira, mas aceitamos nos apresentar todas as vezes que somos chamados”.

Ambos fazem também valer a máxima de que “em time que está ganhando não se mexe” e falam que abandonar o choro está fora de cogitação. “A música se ronava por si só, por isso não penso em mudar de estilo”, explica Binha. “Meu único sonho é um dia poder tocar bandolin na praça de Três Lagoas”, diz Rui. O instrumento substitui o cavaquinho em algumas músicas.

Você sabe o que é choro?
O choro, também chamado de chorinho, é um estilo musical tipicamente brasileiro e possui mais de 130 anos de existência. Trata-se de um ritmo agitado e alegre, cujas melodias podem ser instrumentais ou possuírem uma letra.
A principal característica do choro é a presença de um instrumento de solo que pode ser flauta, bandolin ou cavaquinho e um ou mais violões, ou violão de sete cordas que acompanham e formam a base musical. Um pandeiro é utilizado para marcar o ritmo da canção “chorada”.

Acredita-se que o estilo tenha chegado ao Brasil em 1808, junto com a Família Real Portuguesa. A corte trouxe consigo alguns instrumentos como piano, clarinete, violão, saxofone, bandolin e cavaquinho. De carona vieram também as danças de salão como valsa, quadrilha, minueto e xote.

Com a abolição da escravatura em 1850, os negros livres fizeram surgir uma nova classe social que se alojava no subúrbio da capital carioca. O hábito de interpretar as canções estrangeiras sem conhecerem as partituras, isto é, apenas depois de ouvi-las e a influência dos ritmos africanos são considerados os principais ingredientes para o surgimento do choro.

Várias interpretações tentam explicar porque o gênero musical é chamado de choro:
 - Acredita-se que, no século XIX, as músicas estrangeiras eram interpretadas de maneira chorosa e foram apelidadas de “músicas de fazer chorar”;
 - O termo pode também ter se originado da palavra Xolo, que era um tipo de baile muito apreciado pelos escravos das fazendas. A influência da fala portuguesa teria modificado a pronúncia pra xoro e, mais tarde, a palavra começou a ser escrita com CH, invés de X;

Chorões de sucesso:
Tico-Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu
Brasileirinho, de Waldir Azevedo
Noites Cariocas, de Jacob do Bandolim
Carinhoso, de Pixinguinha
O violão e a flor, de Toninho Ramos
 
 
 
 
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